Estamos nos preparando para a mudança!

Por Leisa Perch*

Enquanto nos preparamos para a Cúpula do Clima do Secretário-Geral das Nações Unidas esta semana e para o segmento de Alto Nível da 69ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, bem como para o lançamento da Aliança Global para Agricultura Climaticamente Inteligente, é oportuno refletir sobre as implicações desses eventos para as agenda climática e agrícola mais ampla. No fim da semana passada, centenas de milhares de pessoas se reuniram em Nova York e em todo o mundo a fim de dar continuidade ao esforço para colocar as mudanças climáticas no centro dos debates locais, nacionais e globais sobre políticas atuais e para o futuro. Alimentação e nutrição também precisam estar no cerne desses debates.

Quando acrescentamos a agricultura às discussões sobre o clima, os problemas para as pessoas e seus meios de subsistência tornam-se mais claros, por vezes de maneira devastadora. A produção de alimentos apenas pela produção não é suficiente. Agricultores e famílias que mal podem garantir sua próxima refeição não estão em posição de se preocupar com o próximo ano ou com os impactos das mudanças climáticas daqui a 20 ou 30 anos. Porém, eles sabem que algo está mudando e o que eles frequentemente expressam são mudanças e transições mais simples nos padrões climáticos e na disponibilidade de recursos que tornam mais desafiador seu processo de produção de alimentos e mais arriscados os meios de subsistência baseados na agricultura.

Isso muitas vezes não é apenas resultado de condições meteorológicas e das mudanças climáticas, mas se deve a uma combinação de solos degradados ou com baixa capacidade de produção, pouca ou nenhuma irrigação, culturas não adaptadas às condições climáticas locais, escassez e excesso de água, competição por água e entre finalidades de de uso da água, falta de segurança da posse das terras e falta de acesso a crédito, ferramentas e tecnologias. Alguns desses fatores são definidos em grande medida por gênero e papéis de gênero. As respostas à nossa recente pesquisa sobre Gênero e Agricultura Climaticamente Inteligente (Climate-Smart Agriculture, CSA) confirma que agricultores, pesquisadores e tomadores de decisão concordam que esta é uma questão que merece maior atenção.

É fundamental encontrar formas e meios para apoiar sua adaptação e a mitigação desses riscos e permitir que participem ativamente do processo de formulação de soluções. Os pequenos agricultores sabem melhor que qualquer outro quais são as suas necessidades, quando são necessários insumos adicionais e quais os riscos que estão dispostos a assumir. Uma lição que continua a emergir do trabalho do Centro RIO+ sobre a agricultura climaticamente inteligente, implementado em colaboração com a Rede para Análise das Políticas sobre Alimentação, Agricultura e Recursos Naturais (FANRPAN), é que são necessárias políticas e soluções que sejam, ao mesmo tempo, humanamente e climaticamente inteligentes.

É por isso que nosso foco não está na produtividade da CSA ou em seu potencial de baixa emissão de carbono, por mais importantes que sejam. Nosso foco está em questões de igualdade de recursos – aos que eles têm acesso ou não e por quê? Como as políticas públicas podem ajudar ou atrapalhar? Ao mesmo tempo, também tentamos tratar dos incontornáveis problemas ​​de resiliência, adaptação e aumento da renda. Se a produtividade aumentar sem que a renda cresça de modo a expandir os meios de subsistência, os ativos e a capacidade de escolha dos agricultores, a CSA não será sustentável. Se sequestrarmos mais carbono, mas não pudermos também garantir a segurança alimentar dos agricultores e daqueles que os cercam, a CSA também não será sustentável.

Essas inter-relações são, para nós, uma das razões pelas quais escolhemos a agricultura climaticamente inteligente como uma das primeiras questões a explorar a fundo no contexto das mudanças climáticas e da gestão de recursos naturais. Seu potencial para as conquistas em três frentes que nos interessam é outra razão. Se a CSA tiver sucesso em seus três objetivos principais – aumento da produtividade, segurança alimentar e renda e baixo impacto de carbono –, ela poderá levar a uma nova geração de abordagens que realmente incluam simultaneamente os pilares econômico, social e ambiental da sustentabilidade.

A Aliança Global para Agricultura Climaticamente Inteligente (liderada pela FAO) inegavelmente ganhou força nos últimos anos, incluindo estreitas ligações com a Nova Parceria para o Desenvolvimento da África e o acordo para lançar uma Aliança para a Agricultura Climaticamente Inteligente na África, com o objetivo de aumentar a resiliência e a segurança alimentar de mais de 20 milhões de agricultores nos próximos dez anos.

Esperamos que a Aliança também seja um núcleo para abordagens humanamente inteligentes. Estamos ansiosos pela oportunidade de aprender mais e colaborar para assegurar a complementaridade entre nossos trabalhos. A CSA tem o potencial para ação social maciça e mudança social na agricultura, na produção de alimentos e na nutrição e para um pacto global duradouro sobre estas questões para as gerações futuras. A construção dessa comunidade de ação começa em muitos níveis e a futura Comunidade de Prática para CSA na África Oriental e Austral (com a FANRPAN e outras) pode fazer a diferença.

* Especialista de Políticas do Centro RIO+ e Gerente de Projeto da Parceria RIO+/FANRPAN

 

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